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10-10 - brnd.ws

10-10

Portugal caminha para o duplo 10, 10% de défice e 10% de desempregados. De momento temos apenas uma autorização do parlamento para se chegar aos 9% de défice, mas se a oposição está contente com 8% e o governo com 9%, quando as contas forem realmente feitas devemos estar nos 10%. Pelo menos esta tem sido a norma do planeamento público. E o desemprego já não deve parar antes dos 10%, porque o mercado de emprego reacciona com uns meses de atraso em relação à economia e a economia não se prevê que cresça nos próximos tempos. De crescimento real estou a falar, aquele que permite às pessoas comprar pelo menos um rebuçado mais este ano do que no ano anterior.

O crescimento do défice e do emprego não seriam tão graves se não se conhecessem a incapacidade de todos os governos portugueses (desde Salazar talvez?) em reduzir a despesa pública e a rigidez do nosso mercado laboral.

Por partes. Sem reduzir despesa não vamos conseguir endereçar a economia. Por pôr um exemplo simples, se eu este mês gastar mais do que ganho e puser no cartão de crédito, no próximo mês vou ter que gastar menos do que o que ganho para poder pagar o cartão de crédito. Se não conseguir, no próximo mês vou começar a pagar juros no cartão. E ainda pior, se continuar a gastar mais, a minha conta do cartão de crédito só vai piorar. Ou seja, para eu resolver realmente o meu problema e poder reduzir a minha conta de cartão tenho que gastar menos do que ganho. É isto que os governos têm sido incapazes de fazer. Reduzir o défice significa apenas que cada ano eu acrescento um pouco menos à minha conta a crédito mas ela continua a aumentar. E como pago juros sobre isso, quanto mais aumenta mais apertado eu fico. A única maneira de resolver o problema é eu gastar menos do que ganho e isso, um superávit orçamental, que é algo que ninguém se lembra de acontecer. E só há duas maneiras de conseguir ter um superávit. Ou eu ganho mais dinheiro, ou seja subo impostos ou a economia cresce com pujança, ou eu gasto menos, e é aqui que os governos têm claudicado. E portanto continuamos a acumular défices e a ver a nossa dívida aumentar. 10% não é mau no contexto global mas é-o no contexto específico do país.

Os 10% de desemprego são outro tipo de problema. Como é normal, em tempo de crise o desemprego sobe. O problema em Portugal, que é comum à maioria dos países europeus, é que o mercado de emprego é extremamente rígido. Ou seja, é difícil despedir e como tal quando chega a crise o despedimento, que deveria ser uma válvula de escape, é uma válvula entupida. As empresas só despedem em desespero de causa ou despedem gente válida com contratos precários, muitas vezes jovens que estão mais sujeitos a contratos a prazo mas que provavelmente são de enorme valia. O resultado é um lastre de custos acumulado em tempo de crise e uma redução do talento que as impede as empresas de se reestruturar quando a economia começa a crescer. E por isso demora muito mais tempo até que estas empresas voltem a ter a saúde suficiente para voltar a contratar. E como tal o desemprego não diminua até vários meses após o início da recuperação económica.

No meio desta conversa técnica porém pode passar despercebido o verdadeiro drama deste duplo 10. O duplo 10 significa mais gente no desemprego, mais gente em situação desesperada, provavelmente com dívidas por pagar e famílias para alimentar. Significa fome, pobreza e mais atraso. Um atraso que já levou Portugal do topo da cauda ao rabo da cauda da Europa dos 15 e que, se nada mudar, nos vai levar do topo da cauda ao rabo da cauda da Europa dos 27.

P.S. Há tempos li um artigo, e tenho pena de não ter guardado o link, a congratular-se pelo facto da Irlanda e da Espanha, vistos durante muito tempo como exemplos a seguir, estarem agora a passar um mau bocado, concluindo que afinal o nosso atraso na última década não era tão criticável. O artigo recebeu inúmeros comentários positivos. É pena porque é mesquinho e ignora um pormenor importante. É que, mesmo tendo caído, qualquer dos dois países continua à frente de Portugal em todos os índices de qualidade de vida. E convém lembrar também que no início dos anos 80 partiram todos basicamente do mesmo ponto. E que, ao contrário do que diz o ditado e a física, em economia é preferível cair do ramo mais alto porque normalmente tenho mais ramos a amparar a minha queda e eventualmente vou parar num desses. Se eu cair do primeiro ramo vou parar ao chão.

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