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O mercado de emprego em Portugal, a corrupção e o doutor Vara - brnd.ws

O mercado de emprego em Portugal, a corrupção e o doutor Vara

Ultimamente tenho sido confrontado por diversas vezes com a questão de voltar ou não a trabalhar em Portugal. A minha resposta tem sido invariavelmente um rotundo não, nem agora nem num futuro próximo. Há quem o interprete como um estado de amargura permanente, outros acham arrogante, eu penso simplesmente que se vivemos na era da globalização devo procurar as condições ideias para desenvolver o meu trabalho onde quer que elas existam. E esse lugar não é neste momento Portugal.

A face oculta que tem enchido os jornais nos últimos tempos tem o condão me atirar à cara duas das três principais razões que me levam a não querer trabalhar em Portugal. Explico-me.

Corrupção. O problema da corrupção não é tanto ela existir mas o que nós fazemos com ela. A existência de gente corrupta não se pode atribuir a um governo, mas aquilo que se faz com os corruptos é da total responsabilidade deste governo e dos que passaram pelo poder, que se têm mostrado incapazes de criar uma justiça funcional. Já aqui disse e repito que o mais grave problema com que Portugal se debate é a justiça. O sentimento que impera, em nacionais e estrangeiros, é que em Portugal quem tem dinheiro é impune e isso afasta investimento porque ninguém está para se chatear a investir num país que tem uma justiça terceiro-mundista e salários de primeiro mundo (ou lá perto).

Clientelismo. A face oculta lançou de novo para as primeiras páginas do jornal um indivíduo que eu repugno pelo que representa. O doutor Vara, doutor porque se licenciou numa universidade entretanto encerrada no polivalente curso de relações internacionais, personaliza o que eu chamo factor de implosão da relação universidade – mercado de emprego. O doutor Vara chegou a director da CGD sem nunca pisar uma universidade, ou pisando fê-lo sem aproveitamento. E não pretendo com isto diminuir aqueles que não têm um curso superior. Não é um certificado de inteligência nem nada parecido mas um banco não é uma mercearia, nem sequer uma empresa de software. Aí está a recessão a provar que gente extremamente inteligente é facilmente enganada por quem de facto sabe do assunto. Eu nunca ouvi o doutor Vara emitir uma opinião sobre finanças e no entanto ele tem (tinha) responsabilidades sobre áreas da maior complexidade no maior banco português – banca de investimento, clientes corporate, crédito especializado. Podemos encontrar mais doutores Varas espalhados pelas maiores empresas portuguesas, estatais ou não, e isto é o tal factor de implosão da relação universidade – mercado de emprego. Quando as perspectivas profissionais não têm correspondência com a competência de um indivíduo para executar uma determinada função, a lógica do sistema de ensino e do mercado de trabalho rui pela base. Porque razão vou eu tirar uma licenciatura se sei que a melhor forma de promoção é ser amigo do chefe? Porque razão quero um mestrado se sei que a minha carreira não depende da minha formação? O clientelismo tem uma consequência dupla: por um lado destrói o sistema de educação porque desincentiva a excelência do ensino como passo lógico para uma carreira profissional de sucesso, e por outro lado destrói o mercado de trabalho porque arruína a motivação daqueles que sabem que a carreira não depende da sua qualidade mas antes de jogos políticos.

Se juntarmos a estes dois factores a falta de qualidade da gestão em Portugal temos um cocktail que é demasiado amargo para o meu paladar. Em vez de lidar com doutores Varas prefiro procurar oportunidades onde sei que a minha evolução profissional depende em maior parte de factores que eu controlo. E este problema, que eventualmente é mais visível para mim porque tenho contacto diário com gente nas mesmas condições, vai drenando pouco a pouco a capacidade do país reverter a situação complicada em que se encontra. A questão não tem apenas a ver com aqueles que procuram o estrangeiro como escape, tem sobretudo a ver com aqueles que, ficando em Portugal, podiam ter um papel relevante no desenvolvimento do pais mas não estão para se chatear porque não têm alma de Dom Quixote.

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