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Varrer a porcaria - brnd.ws

Varrer a porcaria

Em 1993 Portugal perdia em Itália o derradeiro jogo de qualificação para o mundial, falhando a qualificação e no final do jogo o então e hoje seleccionador deixou uma pérola para as hemerotecas: “É preciso varrer a porcaria que vai na federação”. Passados todos estes anos, lembrei’me dessa pérola quando estava a passar a semana em revista. Mas há mais para além do assunto estrela: da Madeira ao Chile, da economia à política, o menú não é muito variado mas também não é prato único. O doutor Jardim continua a ter espaço privilegiado neste blog, eu que costumo ignorar a personagem.

O jardim do Jardim. O pior das notícias que vieram da Madeira foi saber quer era um desastre evitável e o aproveitamento feito por todo o político que teve direito de antena. No Haiti um terramoto de magnitude 7 na escala de Richter causou mais de 200 mil mortos. Ontem, um terramoto de magnitude 8.8 deixou uma factura de 700 mortes, apesar do número vir provavelmente a aumentar. A diferença de magnitude das vítimas dos dois desastres é de tal forma monstruosa que ninguém pode reclamar que os dois fenómenos não são compraráveis. Eles são comparáveis pelo menos num aspecto – o incorrecto planeamento do território amplia de forma animalesca qualquer desastre natural, ou alguém acredita que se a arquitectura e planeamento chilenos fossem semelhantes aos da ilha das Caraíbas o saldo não tinha sido ainda mais devastador? E é por causa disto que o desastre da Madeira é revoltante, porque aparentemente alguém assobiou para o lado quando os especialistas avisaram que havia erros de planeamento a corrigir. Mas de repente a malta começou a dizer que o doutor Jardim é um estadista. Mentira! Continua a ser o mesmo déspota populista que, quando confrontado com a realidade dos estudos, não duvidou em responder com insultos sem proferir um argumento válido para refutar as acusações de quem diz que o desastre podia ter sido evitado. Suponho que seja isto um estadista à moda da casa.

Cubanos. Duas semanas antes o doutor Jardim desdenhava dos sicilianos, isto depois de vezes sem conta ter orgulhosamente declarado que podia ser independente do continente onde estão os cubanos, os tiranos, entre outras pérolas. Claro que, quando a desgraça bateu à porta, o doutor Jardim veio pedir ajuda aos cubanos e os cubanos vieram ajoelhar-se aos pés do doutor Jardim a pedir perdão pelos pecados passados. Foi uma triste procissão a das declarações de imprensa de todos os políticos que tiveram direito a um microfone e que, de repente, eram os melhores amigos da Madeira. Deixem falar as vítimas e trabalhar quem as socorre. Tudo o resto está a mais.

A porcaria. Há momentos na nossa vida em que olhamos à nossa volta e só nos apetece desligar o botão e começar de novo. Já não é sequer virar a página, é atirar o caderno ao lixo e começar um novo. Ou, como diria o nosso seleccionador, varrer a porcaria. Eu não gosto muito de varrer porque levanta pó e o varrer só é eficaz se a porcaria for atirada ao lixo – varrer para debaixo do tapete não vale de nada. Quando olho para estas últimas semanas e ouço as histórias que saem nos jornais sobre tudo o que envolve a vida política em Portugal, a única vontade que tenho é essa, varrer a porcaria para bem longe. Tudo cheira a podre, a desonestidade, a esquema, a corrupção. Cada audiência no parlamento é um manual de filhaputice, de manobras de bastidores e, como é óbvio, ninguém hoje sabe quem diz verdade e quem não porque o que todos sabemos é que toda a gente tem algo a ganhar e muito a perder com tudo isto: o PM com o polvo às costas, o PR com as eleições à perna, o PSD com eleições internas, a oposição que quer deitar abaixo o PM, o PGR que quer conservar o posto, os jornalistas que querem passar a imagem dos coitadinhos, os tachistas que querem manter o tacho. Se me conseguirem indicar quem, no meio desta gente toda que tem falado sobre o assunto, diz somente a verdade acima de qualquer suspeita, eu agradecia porque facilitava-me a vida. Acho que isto só vai lá com a mais clássica das soluções informáticas: desliga e volta a ligar. Costuma funcionar com as máquinas.

À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta. Caio Júlio César não foi propriamente um exemplo de virtudes, mas entre um império e algumas lições militares, deixou também algumas lições políticas, a mais famosa das quais a que resultou no divórcio da sua então mulher Pompeia. Pompeia foi considerada responsável por um sacrilégio no qual o próprio César reconheceu que ela pouco poderia ter feito. Mas César contrapôs com a frase que ficou para a história. César, como é fácil de adivinhar, não era estúpido, e aquilo que ele queria evitar era, numa altura em que a política em Roma era tudo menos estável, ter uma distracção com que se preocupar. E este é o problema com que se debate hoje em dia o nosso PR. Está claro que, independentemente desta raça de políticos ser ou não séria, não parece. Duvido que hoje alguém ponha as mãos no fogo pelo PM, PGR, ou mesmo até por uma boa parte da oposição. O problema não é o descrétido dos políticos mas as consequências que isso arrasta para o sistema político em geral. Quem é que hoje acredita que o parlamento é um lugar onde se trabalha para resolver os problemas do país? Quem é que acredita que o governo é um conjunto de funcionários bem qualificados para as funções que ocupam, preocupados unicamente com o desenvolvimento do país? Quem acredita que o PGR é uma garantia de que, em Portugal, ninguém pode cometer um crime e passar incólume sem uma acusação? Se ao leme do país estivesse César, alguém duvida de qual seria a solução?

The economy, stupid. O involuntário slogan do chefe de campanha de Bill Clinton em 1992 soou com estrondo na minha cabeça quando li, há uns dias atrás, as três primeiras notícias da secção de economia do público. Como já aqui disse, eu só leio títulos e aqui está um bom exemplo de como não vale a pena ler o conteúdo. Eis os 3 títulos que foram publicados em questão de horas:

  • Retoma está a perder força em Portugal e no resto da Europa
  • Salários congelados nas empresas públicas mas TAP e CGD podem ser excepção
  • PSI 20 abriu a subir 0,57 por cento

Sobre isto só posso dizer o seguinte:

  • Quem negoceia em bolsa deve ter um jornal económico diferente do meu ou ver muito à frente
  • O facto da TAP querer ser uma excepção ao corte de salários diz muito da forma como são geridas as empresas públicas, em particular um buraco como a TAP

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