Image Image Image Image Image Image Image Image Image Image
Scroll to top

Top

No Comments

A geração “Não comento” - brnd.ws

A geração “Não comento”

PSD. Alguém devia dizer aos senhores do PSD que, em álgebra, a soma de vários zeros não dá nenhum número positivo, e fora da álgebra às vezes ainda dá soma negativa. Na semana que passou aconteceram os debates sociais democratas. Mas mesmo antes dos debates acontecerem, os candidatos tiveram tempo para dar entrevistas, escrever nos seus sites pessoais e até blogues e twitter, e dizer o que lhes passava pela cabeça com toda a calma e sem precisar de elevar o tom de voz. E qual foi o resultado? Fraquinho… Perante o deserto de ideias de qualquer dos candidatos, ficamos com chavões – ruptura, aparelho, reforma.

A bola e a politica. Há já algum tempo que venho pensando que a política cada vez se parece mais com o desporto. Como eu sou desta equipa, não gosto da outra equipa e se for preciso até insulto os adeptos do rival. Não interessa quão (ir)racional o meu argumento seja, ou até o que é que o outro está a dizer, importa é saber se é da minha equipa ou contra a minha equipa. Esta dicotomia não acontece apenas em Portugal, longe disso. Antes, tenho visto esta tendência em vários países onde há tradição de governo em alternância, com dois partidos dominadores que se vão alternando no poder e que têm o hábito de governar em maioria absoluta ou confortável – Espanha, Reino Unido, Estados Unidos, entre outros. Ninguém precisa de falar a sério com ninguém, excepto para dirigir alguns insultos ou piadas de mau gosto, ou seja, ao melhor estilo da bola.

Os media e a bola. Se pensarmos bem, o mundo dabola (e falo de futebol porque em Portugal é o desporto por excelência) sofreu uma mudança radical nos últimos 20 anos, em grande parte por culpa da televisão e da febre mediática que assaltou o nosso mundo. Nos anos 80 e parte dos 90 os jogadores eram quase todos broncos, sem escolaridade e mal sabiam falar. Claro que, se para alguém com o dom da palavra, falar à frente de uma câmara é complicado, para alguém iletrado é um desastre. E eu assisti durante anos a pérolas memoráveis dos jogadores da bola. Mas há algo que tenho que reconhecer aos jogadores de então, e é que eles sabiam do que falavam e tentavam-no expressar o melhor que podiam. E, quando decifrado, nós sabíamos que às vezes se marcam golos com sorte (“marquei com o pé que estava mais à mão”), que o mundo da bola é uma máfia (“vocês sabem do que é que eu estou a falar”) e que, no fundo, este desporto tem muito de individualismo (“só existem três coisas que param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá”). Nos 90 a televisão chegou em peso ao futebol, os jogadores começaram a ser estrelas e também a ser mais conscientes da sua imagem no ecrã. E qual foi o resultado? O vazio. Hoje, quando um jogador fala já não diz bacoradas, já fala com boa gramática e sem erros ortográficos, mas não é capaz de expressar uma só ideia. Tudo soa mais ou menos assim “O que importa não é o meu golo mas os 3 pontos e ajudar a equipa a conquistar títulos, não o teria conseguido se não fossem os meus companheiros, agora temos que pensar no próximo jogo e vamos encarar cada jornada como se fosse uma final e não quero falar do árbitro porque ele fez o trabalho dele e nós o nosso” [respirar]. Quem diz jogadores, diz treinadores e presidentes. O mediatismo destruiu a espontaneidade e com ela qualquer ponta de originalidade.

A política e a bola. Por coincidência ou não, com esta vaga de jogadores estrela com discursos mecanizados, surgiu uma geração de políticos com características muito idênticas. Preocupação com a imagem, com uma trupe de assessores de topo o tipo, com um discurso eficiente, mecânico e extremamente estudado. Em comum com os jogadores da bola têm uma coisa: um relações públicas ou RP – e não falo dos inúteis que se passeiam por este mundo a apresentar-se como RP de coisa nenhuma, falo de RP de profissão. Os RPs servem para mecanizar discursos, evitar gafes e embaraços e, em última análise, problemas. Para tal têm uma regra de ouro, que o meu último RP me repetiu até à saciedade: quando não sabes o que responder, dizes “não comento”. Simples. E graças aos RP, temos hoje na bola como na política uma geração “não comento” que raramente se engana e nunca tem dúvidas. E trago à memória esta grande citação do nosso agora PR, provavelmente a última grande gafe deste senhor, porque ele é talvez a face mais visível da transformação da política na era da TV. Ver o Cavaco Silva no final dos anos 80 e no final dos 90 é quase como ver o João Pinto capitão do FCP transformar-se no Cristiano Ronaldo dos nossos dias. A base é a mesma, o RP é que não.

À bola o que é da bola. Infelizmente, há uma diferença de vulto entre os jogadores e os políticos. Os primeiros são pagos para jogar e o que eles dizem importa pouco para a essência do espectáculo, os segundos são eleitos para governar e o que eles dizem reflecte-se no que fazem. E assim passámos dos políticos dos 80, que cometiam gafes, atropelavam-se nos debates e perdiam as estribeiras em público, aos políticos de hoje que debatem com tempo cronometrado, sem direito a interrupções, num espectáculo que faz do curling um desporto de emoções fortes. E o problema é que passámos também de políticos com visão de futuro e de governação, capazes de expressar ideias independentemente da sua bondade televisiva, a políticos que hoje soam assim “vou lutar por um país mais desenvolvido, mais igualitário, através de um conjunto de reformas na justiça e na educação, por via da desburocratização do aparelho do Estado, por forma a garantir maior transparência das contas públicas e assim vencer o desafio da modernidade”. A maior diferença é que os jogadores já aprenderam a não falar do árbitro mas os políticos ainda insultam a oposição, interna ou externa.

Submit a Comment