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Ninguém me ouve - brnd.ws

Ninguém me ouve

Bater no ceguinho. Fica sempre bem dizer “eu bem disse mas ninguém me ouviu”. É por isso que eu quero deixar aqui registado que, de tanto bater no ceguinho, o povo vai acabar por ter pena dele. Esta semana nos jornais portugueses tivemos em paralelo o caso da TVI, o caso das escutas destruídas ou por destruir, o caso dos submarinos e agora o caso das casas da Guarda. A páginas tantas, a gente já começa a ter pena do homem. Para ser sincero, sobre este último escândalo eu nem sei muito bem qual é o caso. O pior é sem dúvida o mau gosto do PM no que toca a projectar vivendas. As poucas imagens que eu vi são horrendas e acho que isso seria suficiente para qualquer PM que se preze apresentar a demissão. “Demito-me por mau gosto e por ter decepcionado os portugueses com os meus valores estéticos e arquitectónicos”. Isto sim era um PM a valor. Mas parece que não é esse o problema. Afinal é o das compatibilidades, mas talvez não, talvez seja o problema do desleixo, ou talvez o problema do diploma de engenheiro. Tenho para mim que o grande caso é que o Sócrates foi apanhado dentro de um submarino de fabrico alemão a destruir escutas onde se podia ouvir que ele queria comprar a TVI com o dinheiro que ganhou a projectar vivendas geminadas na Guarda. Isto é que era um caso.

A vantagem do poeta. O Manuel Alegre acha que parte com vantagem para as eleições presidenciais porque “professores de Finanças, professores de Economia, tecnocratas, há muitos. Poetas envolvidos na política há muito poucos”. Poetas na política conheço pelo menos mais um, o Manuel João Vieira dos Irmãos Catita que já foi pré-candidato duas vezes. Já operários metalúrgicos envolvidos na política só conheço o Jerónimo de Sousa, se calhar ele é o verdadeiro trunfo para as próximas presidenciais. Pela lógica do Manuel Alegre, quanto mais rara a profissão, mais vantagem política daí se retira. A malta está farta de tecnocratas, é tempo de termos um astronauta presidente. Eu acho que o Manuel Alegre ainda não percebeu que o facto de haver tantos tecnocratas (e juristas diria eu) na política é porque eles não encontram emprego em mais lado nenhum. Pelos vistos os poetas têm mais sorte.

Mesquinhez. Outro caso da semana foi o prémio de 1.8 milhões de euros do Mexia como presidente da EDP. Ana Gomes, a mulher que mais decibéis produz na política portuguesa, veio berrar que era uma imoralidade. António Seguro disse o mesmo. O curioso é o argumento “Em fase de enormes dificuldades e de exigência de sacrifícios aos portugueses, é incompreensível como se atingem estes valores remuneratórios.” Pergunto então ao José Seguro e à Ana Gomes quanto vale a moralidade? Será que os portugueses acham moral que o José Seguro ganhe 60,000 euros anuais mais ajudas de custo como deputado? Ele e os compinchas dele que depois aparecem no parlamento quando lhes dá na real gana, justificando as ausências com “trabalho político”? Talvez estes dois arautos da moralidade sejam perros na matemática mas eu dou uma ajudinha. Se cada um dos 230 deputados tirar 560 euros ao seu salário conseguem pagar o prémio do Mexia. Será que o corolário da moralidade é os deputados ganharem o salário mínimo enquanto houver pelo menos um português no desemprego? Será que a Ana Gomes acha isso imoral? E o que é que acham os desempregados? Para além da mesquinhez das declarações, estes personagens ainda misturam tudo. A EDP não é uma empresa pública, é uma empresa privada onde o Estado português tem uma participação minoritária (20%). E mais ainda, o Estado tem poder para limitar os lucros da EDP porque as tarifas de energia são reguladas. Imoral é gastar dinheiro dos contribuintes a pagar a gente que faz carreira à custa do Estado sem fazer um charuto, como é o caso da maioria dos deputados. Se a Ana Gomes e o António Seguro algum dia resolverem deixar a mama do Estado e se dedicarem a trabalhar no mundo real, talvez algum dia entendam a palavra mérito e a relação entre salário e resultados.

Rábula da semana. O título dizia “Líder do manifesto contra as renováveis propôs parque eólico off-shore ao Governo”. O líder é o Mira Amaral, um mestre na arte dos “projectos especiais” para o desenvolvimento do país. O positivo é que, pelo menos, ele não tentou negar o caso. Em vez disso, disse não haver qualquer contradição. “Como cidadão, tenho toda a legitimidade de discutir a lógica das políticas do Governo e, por outro lado, aproveitar as oportunidades de Mercado”. Eu não discordo da declaração porque se fala em legitimidade, e o “olha para o que eu digo não olhes para o que eu faço” é legítimo. Outra coisa é ter a cara dura para se apresentar em público como activista de uma causa, quando em privado se actua contra a causa. Eu nem acho que seja pouco ético, é mesmo só uma questão de vergonha na cara.

Jorge Miranda e os gays. Na semana em que o TC declarou constitucional o casamento entre homossexuais eu não quero deixar de trazer de novo para a ribalta as declarações, para mim históricas, do grande constitucionalista Jorge Miranda. Continuo a achar escandaloso que a afirmação miserável deste suposto especialista não tenha tido eco qualquer na imprensa, que está mais preocupada com as casas geminadas do Sócrates e as guerrinhas do PSD. Recordo aqui o que o senhor disse há um mês atrás: “Os homossexuais têm todos os direitos dos cidadãos portugueses, inclusive o direito de casar. O que não podem é casar com pessoas do mesmo sexo”.

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