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Se o Cavaco diz... - brnd.ws

Se o Cavaco diz…

Li hoje (e também pude ver no vídeo da SIC) que o PR acha “totalmente improvável” Portugal sair da zona euro. Eu, que leio diariamente o blog do Paul Krugam, a cujas declarações o nosso PR respondia, fiquei logo muito mais descansado. Peguei na chaleira, fiz um chá e fui para a cama com a sensação de quem tinha acabado de acordar de um pesadelo.

Brincadeira! Antes de entrarmos na substância da matéria, vamos à forma. Totalmente e improvável são duas palavras que não se podem usar juntas, pelo menos não da boca do economista Cavaco Silva. Uma probabilidade é isso mesmo, provável. Muito provável, pouco provável, mas quando passa a totalmente deixa de ser probabilidade e passa a ser certeza.

Passemos à substância e vamos assumir que o PR acha impossível Portugal sair da zona euro. Desde logo a posição é sustentável. Comecemos pelos argumentos que levam Krugman a dizer que é “plausível” que a Grécia seja obrigada a sair da zona euro e por contágio Portugal e logo Espanha e Irlanda se vejam metidos em sarilhos sérios. Simplificando para ser conciso, com o BCE a seguir a política monetária que mais interessa a Alemanha, e dado que os problemas da Alemanha são muito diferentes dos da Grécia, Portugal ou Espanha, é plausível que estes últimos entrem num período de estagnação e deflação. A deflação vai fazer que o problema da dívida se agrave por si só, mesmo que essa não aumente, podendo levar estes países à bancarrota. Como os governos estão impedidos de executar medidas expansionistas por terem que respeitar os limites de défice, há dois cenários possíveis que levariam à saída da zona euro: obrigados pelos mercados e pelos restantes países da zona euro, ou por iniciativa própria por forma a poder desvalorizar a moeda, fazer frente à dívida e estimular as exportações. Em nenhum caso Krugman admite o fim do euro, já que acredita que a Alemanha e a França não deixariam que caísse. Obviamente, ele também admite que nada mude mas para tal serão necessárias mais ajudas aos países em dificuldades ou que a economia mundial cresça substancialmente para puxar a Europa da estagnação.

Isto é uma versão muito abreviada do argumentário do Paul Krugman que pode ser lido em vários posts no blog dele. A posição é polémica e não tem faltado debate sobre o assunto. Debate ao qual se juntou agora o nosso PR para descansar os portugueses. E quais são os argumentos de Cavaco Silva?

Ele diz “não acredito que Portugal alguma vez saia da zona Euro, nem acredito que a Grécia venha a sair”. Ok Cavaco, mas porquê? “Eu estudei muito a zona Euro, tenho livros publicados sobre a zona Euro [...] eu conheço o professor Krugman [...] eu acho que há uma certa falta de conhecimento do que é a zona euro”. [NR. O vídeo destas declarações está aqui] Ok Cavaco, por acaso o Krugman (o professor Krugman) também tem livros publicados, alguns sobre a zona euro, e talvez não por acaso ganhou o prémio Nobel ou o prémio Príncipe das Astúrias à custa dessas publicações. Já agora, não achas um pouco petulante tentares afirmar-te como um grande especialista da zona euro? E que tal um argumento concreto que contrarie um dos que esse senhor que desconhece a realidade do euro esgrime? Hummm… “Seria um desastre para a Europa se por acaso este edifício que é a União Monetária Europeia viesse a ruir”.

Ora aí é que está a questão. O Krugman não diz que o edifício venha a ruir, apenas que é possível que alguns inquilinos venham a ser despejados – aqueles que estão a dar má fama ao condomínio. E o único argumento concreto que o nosso PR esgrime nestas declarações só nos deviam deixar mais desassossegados. Diz ele “é sabido que as vantagens para um país pequeno pertencer à zona Euro são muito maiores do que um país grande” porque os custos de transacção com a moedas fracas eram sempre muito mais elevados do que os custos de transacção com as moedas fortes. E com este argumento em mente a conclusão é que é “totalmente improvável” Portugal sair da zona euro? Se alguém conseguir explicar-me o curto-circuito que vai pela cabeça deste senhor é favor comentar neste post.

PS. Eu penso que é improvável que algum país venha a sair da zona euro e baseio o meu palpite (afinal estamos todos a dar palpites) na falta de coragem que os dirigentes europeus têm demonstrado repetidamente face a problemas importantes, a começar pela crise da dívida grega. Penso que, caso a situação se agrave, não terão coragem de abrir a porta à Grécia e a Grécia não quererá sair do euro. Concordo com a análise do Krugman mas acho que, se chegar o momento da decisão, a Alemanha vai mandar mais dinheiro para tapar buracos. Talvez seja isso que o Cavaco quer dizer quando diz acreditar na sabedoria dos dirigentes europeus, mas como ele fala sempre em parábolas é sempre difícil perceber o que lhe vai na cabeça. O argumentário cavaquista da defesa do euro, esse é muito pobre, mas o especialista é ele…

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