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A trapalhada da Vivo, PT e Telefónica - brnd.ws

A trapalhada da Vivo, PT e Telefónica

No dia a seguir ao anúncio da venda da quota da PT na Vivo à Telefónica, o primeiro ministro veio dizer que “a defesa intransigente do interesse estratégico [ou seja, o uso da golden share] foi absolutamente essencial para que a PT pudesse fazer um excelente negócio”.

Como vem sendo hábito ultimamente (ver artigo sobre neoliberalismo), o PM e o governo acham que o facto de dizerem “isto é azul” torna a coisa azul sem terem que dar mais explicações. As desculpas deixadas não passam de baboseiras para ocupar um parágrafo dos jornais, senão vejamos. A Oi é uma empresa “com mais clientes e mais facturação”. Verdade até venderem a Vivo à Telefónica (ou seja, mentira) e ainda para mais num mercado de menor e mais difícil crescimento (banda larga, telefone fixo). Para o PM “confirma-se a vocação internacional da PT e a sua vocação para desenvolver projectos industriais e de inovação tecnológica neste sector”. O internacional dou de barato mas gostava de conhecer que projectos de inovação é que a PT vai trazer para o mercado da banda larga no Brasil. Finalmente, o PM disse que com o negócio a PT mantém-se um “actor global no mercado da América Latina”, ficando eu sem saber se o mundo está a encolher ou se o PM acha que o globo se resume a Portugal, ex-colónias e América Latina, que é onde a PT é actor (ou actriz).

Dado que o PM não explicou as reais razões para o uso da golden share (errado na minha opinião, a começar no conceito), eu tentei decrifrá-las, começando pelo mais óbvio: dinheiro. O governo vetou um negócio de 7.15 mil milhões de euros a pronto para aceitar um de 7.5 mil milhões de euros em 3 pagamentos: 4.5 agora (ou dentro de 60 dias), mais mil em Dezembro de 2010 e os restantes 2 até Outubro de 2011. Assumindo uma taxa de custo de capital de 12% (não devo estar longe, sobretudo agora), os 7.5 mil milhões a prestações são praticamente o mesmo que 7.15 a pronto mas com um pouco mais de risco (tipo, o governo português ir à falência e a tal taxa de custo de capital disparar). Afinal os espanhóis não são tão estúpidos. Ou seja, excluo o motivo económico para justificar o negócio. Vamos a outros motivos. (quem quiser o cálculo simples de custo de capital e valor actualizado dos pagamentos pode pedir nos comentários, achei que seria demasiado chato e técnico)

O governo falou sempre na importância estratégica da presença no Brasil, nem que seja com um dedo do pé, ou seja, quota minoritária numa empresa de menor importância. Neste caso só se justifica o veto à primeira proposta se isso permitisse uma negociação mais favorável. O uso da golden share e a trapalhada que gerou, incluindo ameaças de Bruxelas, veio colocar pressão extra numa negociação deste tipo. Os accionistas da Oi, que não serão estúpidos, sabiam que a PT tinha que fechar o negócio sim ou sim e o mais rapidamente possível para não levantar mais ondas. Se tivesse aceitado a primeira oferta da Telefónica, a PT teria ido para a negociação com os bolsos cheios de dinheiro, o que também não facilitaria o processo, mas pelo menos nessa condição a PT poderia argumentar que tinha inúmeras opções porque teria tempo para usar esse dinheiro. Com a golden share às costas, à PT sobrava-lhe o dinheiro e faltava-lhe tempo, precisamente o pior dos inimigos numa negociação. Portanto o veto não melhorou a posição negocial da PT, como o governo quis fazer entender.

Corri outros argumentos vários e cheguei à conclusão que só um sobrevive a toda esta trapalhada: chatear os espanhóis nem que seja durante uns dias. Pronto Sócrates, leva lá a bicicleta. Mas o automóvel fica com eles.

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