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Serão os nossos políticos incapazes? Uma teoria sobre a classe política - brnd.ws

Serão os nossos políticos incapazes? Uma teoria sobre a classe política

Li hoje um artigo do César Molinas no El País intitulado “Una teoría de la clase política española” e não pude deixar de pensar no paralelo com a classe política portuguesa. As semelhanças têm alguma razão de ser, dada as origens comuns das nossas classes políticas – ambas são resultado de um período longo de ditadura que terminou sensivelmente ao mesmo tempo. No entanto poderíamos da mesma forma argumentar o contrário, já que a transição democrática ocorreu de forma bastante diferente, sobretudo nos anos cruciais pós-ditadura no final dos anos 70.

Diz o César Molinas que os políticos espanhóis se estabeleceram como uma elite extrativa na definição de Daron Acemoglu & James Robinson no livro “Why Nations Fail” – “grupos organizados que acedem ao poder e naturalmente usam esse poder para benefício próprio em detrimento do interesse geral”. Uma característica importante destas elites extrativas, de acordo com Acemoglu & Robinson, é que elas não só retiram benefício económico do poder, como não criam riqueza e impedem o crescimento económico. Soa familiar?

O curioso da teoria do César Molinas é que, em grande parte, ele atribui esta evolução da classe política espanhola à regionalização em Espanha, que gerou caciquismo regional e o consequente clientelismo económico e partidário. Ora, Portugal não teve um processo de regionalização, mas é impossível ignorar o clientelismo existente no poder local e o poder que os autarcas têm na condução da política partidária (o famoso aparelho). Em tudo o resto vejo na teoria de Molinas um espelho de Portugal – um sistema eleitoral proporcional com listas fechadas que deu origem a uma classe política profissional, a politização das instituições (reguladores, tribunais, agências de supervisão, etc.) e a promiscuidade entre os políticos e as empresas, tanto públicas como privadas.

O resultado, cá e lá, é evidente (penso eu). Temos empresas que vivem à custa de contratos com o Estado, o que resulta em negócios ruinosos para o país (a economia do betão), temos gente a circular entre os gabinetes ministeriais e as empresas públicas e privadas sem qualquer pudor e temos uma economia que depende da política, seja direta (por via de contratos) ou indiretamente (por via do consumo, por esperança de vir a ter acesso a contratos púbicos, ou por medo de represálias).

Molinas conclui que, neste cenário, a mesma classe política que se alçou como elite extrativa não tem condições para resolver a crise. Porquê? Resumidamente:

  1. Esta classe política é a origem da crise mas nunca se vai assumir como tal. Como consequência, a sua única saída é atribuir a crise a condições externas – os mercados, a Merkel, a troika, etc.
  2. A sua única solução é esperar que passe a tormenta, já que qualquer solução real teria que passar pelo desmantelamento da atual classe política, ou seja, eles próprios.
  3. Como elite extrativa que é, esta classe política despreza a educação, o empreendedorismo, a inovação e a ciência. Obviamente, sem estes não se resolve nenhuma crise a longo prazo.

Finalmente, Molina prevê que uma das consequências naturais para esta situação é a saída do euro, porque na teoria das elites extrativas, “o interesse particular prevalece sobre o geral” e as reformas estruturais necessárias para nos mantermos no euro passam pelo desmantelamento dos interesses particulares desta classe.

Onde eu não posso concordar com Molina é na solução. Ele propõe círculos uninominais como solução aos problemas da classe política atual. Eu penso nessa solução e imagino um parlamento com 230 presidentes da junta a fazer negociatas entre eles para aprovar umas leis que beneficiem os amigalhaços da terra.

 

PS. César Molinas tem previsto publicar o livro “¿Qué hacer con España?” em 2013. O artigo publicado no El País e que aqui cito profusamente faz parte desse livro.

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